E QUANDO A GENTE NÃO SE ENCAIXA NO FORMATO PADRÃO?

Eu tenho 28 anos, peso 34 quilos e meço 1,34m, o que equivale a uma estatura bastante ”anormal” pra uma pessoa da minha idade. Por questões de saúde, eu tive um atraso no meu crescimento, portanto, o meu tamanho sempre destoou muito. Sofri um certo bullying, tive que conviver com perguntas do tipo: “ow, é verdade que você tem a idade tal?”. “Por que você é baixinha?”. “Você é anã? Não? Por que você não cresceu?”. Além de olhares e comentários…

Pra ser bem sincera, acho que passei a lidar com o fato de ser “diferente” dos demais fingindo uma autoaceitação (errei e reconheço), e vez ou outra eu me pegava revivendo mágoas e tentando reconfigurar certas situações na minha mente, como se o passado não estivesse passando de fato. Mas por incrível que pareça, a minha baixa estatura se tornou uma ferida aberta mesmo, na fase adulta, minutos antes de uma prova de seleção para uma vaga em uma certa empresa.

Como qualquer pessoa que queira passar o mínimo de credibilidade, cheguei alguns minutos antes do horário combinado. Quando a coordenadora deu o ar de sua graça chamando pelo meu nome, eu educadamente levantei e a cumprimentei com um sorriso de quem queria muito fazer parte daquela equipe. O fato é que ela me olhou de baixo a cima com um olhar desconfiado/espantado/achando que eu era uma piada pronta, e disparou: “mas é você quem vai concorrer a essa vaga?” Eu que achava que era bem resolvida, fiquei sem chão, não consegui me concentrar na prova e só tinha vontade de sumir daquele lugar o mais rápido possível… claro que fracassei miseravelmente no processo seletivo.

Na semana seguinte eu tinha outra prova/entrevista agendada em outra empresa. Meu coração parecia que ia saltar pela boca, suava frio, tremia, e as palavras que eu precisava utilizar pra causar boa impressão não saíam. Acabei desistindo da parada no meio da prova. Foi um dos maiores fiascos da minha vida.

Eu sempre fui muito ansiosa e hoje eu até consigo olhar pra trás e identificar certos comportamentos depressivos, mas a partir dessas duas entrevistas vivenciei uma jornada ladeira a baixo sem fim. Meu cérebro entendeu que eu tinha que compensar a minha baixa estatura com capacidade intelectual pra ser aceita, incluída.

Passei a me cobrar ainda mais e me autocondenar sem misericórdia. Toda vez que de alguma forma eu era testada, um pesadelo se instalava e mais ansiosa, desequilibrada e frustrada eu ficava. Até que eu mesma me convenci de que não tinha potencial e descontei tudo na comida.

Muitos podem pensar que isso tudo é melodrama ou coisa do tipo, mas a verdade é que vez ou outra a casca se quebra e a dor grita, invade, e eu sou humana, vulnerável (nós somos). Eu fiquei traumatizada nível hard com um olhar e algumas palavras, o que caracteriza uma enorme carência da minha parte, eu sei. Não anulo a minha fragilidade emocional e entendo que foi a gota d’água em um copo que já estava para transbordar. Eu queria muito ter autoestima suficiente pra falar: “eles perderam uma ótima profissional”, mas não é simples assim, e ter que fazer parte gera estranheza alheia, que gera cobrança, que gera ansiedade e insegurança, que geram fracasso, que gera rejeição.

A Luiza Junqueira do canal Tá Querida, criou um tipo de vídeo que viralizou no youtube, chamado “tour pelo meu corpo”. Em um mundo totalmente estereotipado, de corpos malhados, altos, magros e bronzeados, as pessoas que se sentem à vontade, expõem nesses vídeos suas “imperfeições”, manchas, gordurinhas, flacidez, cicatrizes, pelos, rugas e qualquer tipo de vulnerabilidade, com o intuito de mostrar que não existe apenas um formato e que ninguém tem o direito de rotular que o tal jeito é o melhor jeito.

O ponto onde quero chegar é que gordos, magros, altos, baixos, negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, transexuais, cadeirantes, pessoas que usam prótese, aparelho respiratório, enfim… todos esses corpos estão por aí, existindo e ocupando um lugarzinho no mesmo mundo em que você vive. Cada um tem a sua história e cada um carrega ao longo da jornada suas lutas e marcas, que merecem no mínimo ser respeitadas. E se não for pedir muito, tenha um pouco de empatia e bom senso, porque o seu comentário maldoso, seu olhar desconfiado, seu riso sarcástico e seu rótulo preconceituoso, podem ser o motivo de vários traumas escondidos por trás de uma gargalhada e de um tudo bem.

Se você carrega um sentimento de “não pertencimento”, seja ele como e qual for, seja gentil com você mesmo e peça ajuda. Não menospreze a sua dor sorrindo quando quiser chorar e dizendo que está tudo bem quando não estiver.

Sim, faço terapia para aprender a enxergar o copo meio cheio.