CASA DE FAMÍLIA OU RESIDÊNCIA ESTUDANTIL – QUAL TIPO DE ACOMODAÇÃO ESCOLHER DURANTE O INTERCÂMBIO?

Ohh dúvida cruel

O tipo de acomodação/hospedagem a ser escolhida durante um programa de intercâmbio é uma das decisões mais importantes. Geralmente os dois tipos de acomodação oferecidos para programas de estudo no exterior são: Casa de Família e Residência Estudantil. Ambas oferecem uma vasta troca cultural, mas é fundamental que o estudante entenda as principais diferenças entre uma e outra e saiba identificar qual opção melhor condiz com o seu estilo e com seus objetivos durante a viagem.  

CASA DE FAMÍLIA (HOMESTAY)

A opção homestay consiste em famílias nativas ou de imigrantes (que tenham o idioma local como o principal), que estejam dispostas a receber estudantes de outros países. O recrutamento dessas famílias é de responsabilidade do departamento de acomodação das escolas de idioma, e não das agências de intercâmbio. Existe todo um processo de seleção e preparação das famílias, portanto, somente aquelas que se adequam às exigências elencadas pelas escolas (limpeza, cordialidade, conforto, perfil psicológico), estão aptas a receber os alunos.

É de suma importância lembrar que uma família não é necessariamente composta por uma mãe, um pai, dois filhos e um poodle. Contanto que a família esteja de acordo com os pré-requisitos das escolas, os estudantes podem sim ser recebidos por um casal de idosos, mães ou pais solteiros, entre outras possibilidades. Outro detalhe importante é que na maioria das vezes, as casas estão localizadas em áreas mais distantes da parte central da cidade e até mesmo das escolas.

Uma vez que o aluno decide se hospedar em casa de família, o mesmo recebe um application, que deve ser preenchido com algumas informações pessoais solicitadas. Neste application, o estudante informa se ele apresenta algum tipo de alergia, restrição ou intolerância alimentar, se faz uso de algum tipo de medicamento controlado, entre outras informações…

Geralmente a opção hospedagem em casa de família inclui duas refeições (café da manhã e jantar), quarto individual e banheiro compartilhado ou não. Cada família apresenta um estilo de vida com regras e hábitos que certamente serão diferentes dos seus. Tudo isso é explicado pelos anfitriões logo no primeiro dia. Caso haja problemas reais de convivência, o departamento de acomodação da escola deve ser notificado, desta forma, os responsáveis irão tomar as devidas providências.

A imersão cultural é fantástica e os alunos têm a oportunidade de entender como é a vida de um local na íntegra. Mas é importante ressaltar que os hosts não têm a obrigação de tratar seus intercambistas como membro da família e muito menos satisfazer certas vontades. Tenha em mente que você está alugando um quarto na casa de alguém e o bom senso sempre abre portas para um bom relacionamento.

PS: Para facilitar a aproximação entre estudantes e anfitriões, é interessante, porém não obrigatório, que os intercambistas presenteiem seus hosts com alguma lembrancinha (chaveiros, por exemplo), demonstrando assim cordialidade e gratidão. Outra dica legal, é preparar algum prato típico do Brasil… Não precisa ser nada muito incrível. Os gringos amam o nosso tradicional brigadeiro! 

RESIDÊNCIA ESTUDANTIL

As residências estudantis podem ser definidas como repúblicas ~ completamente diferentes das repúblicas universitárias conhecidas no Brasil ~ e geralmente têm parcerias com várias escolas e universidades. Apesar de ser uma opção de acomodação mais ‘descolada’, as residências são administradas como se fossem hotéis mesmo e a segurança é extremamente eficaz 24 horas por dia.

As comodidades variam muito de residência para residência, mas em geral, o estudante pode escolher entre compartilhar ou não quarto e banheiro com um ou mais intercambistas do mesmo sexo e nacionalidades diferentes. Geralmente as residências não disponibilizam nenhum tipo de alimentação, porém, oferecem serviço de quarto uma vez por semana (na maioria das vezes), cozinha, lavanderia e área de lazer compartilhadas. Além disso, as studenthouses costumam ser mais centralizadas e próximas às escolas e universidades.

Devido à interação com pessoas de vários lugares do mundo e até mesmo com nativos, a troca cultural é inevitável e além disso, o aluno também pratica o idioma local a todo momento, afinal, todos estão ali com o objetivo de aprender ou aprimorar uma língua.

PS: Brasileiros estão por todas as partes, portanto, cuidado para não ficar na zona de conforto e interagir somente com pessoas da sua nacionalidade. Permita-se conhecer outros estilos de vida.

 

Independente de qual acomodação escolher, tenha em mente que ser flexível e estar aberto a novas relações, enriquece ainda mais a experiência cultural. Abra a sua mente! QUER MAIS DICAS? NESTE POST EU SELECIONEI SEIS COISAS QUE TODO INTERCAMBISTA PRECISA SABER, CLIQUE AQUI E CONFIRA!

PS: Obrigada a queridíssima Natália Ferrari, gerente da agência de intercâmbio Intercultural em Dourados, MS, que gentilmente revisou este post antes de ser publicado. Nada melhor do que receber um help de uma expert em todos os assuntos relacionados a esse universo chamado intercâmbio, não é mesmo? 

A TERRA INTEIRA E O CÉU INFINITO

O QUE ACONTECE QUANDO UM DIÁRIO PERDIDO ENCONTRA O LEITOR CERTO?

Comprei esse livro já tem mais de um ano e ele acabou entrando para o meu estoque de coisas começadas e não terminadas. Eu comecei a leitura, mas em um determinado ponto resolvi pular umas (muitas) páginas e fui direto para o final, talvez porque naquele momento eu achasse que tinha algo mais interessante para fazer, e talvez tivesse mesmo.

Toda vez que abria o meu armário e me deparava com o livro escrito por Ruth Ozeki no meio de alguns outros que tenho, era como se eu tivesse brigado com alguém e me recusasse pedir perdão, entende? No início deste ano resolvi fazer as pazes com ‘A Terra Inteira e o Céu Infinito’ e mergulhei de uma vez por todas nas 462 páginas do livro e ocupei meu tempo de forma útil. Tive vários desapegos durante a leitura. Fiquei meio ausente das redes sociais e até mesmo da vida real, conseguindo me manter distante de alguns pensamentos. Contava os minutos para poder estar no tempo das personagens.

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A autora Ruth Ozeki é filha de mãe japonesa e pai americano, nasceu e cresceu em Connecticut, Estados Unidos e passou alguns anos estudando e trabalhando no Japão. Atualmente é escritora, cineasta e budista. Divide sua vida entre a agitada cidade de Nova York, e uma ilha na Colúmbia Britânica, no Canadá. Ruth afirma que sua adolescência deixou algumas marcas e que encontrou na escrita uma estratégia de sobrevivência. Hoje em dia ela busca na meditação uma maneira de estar atenta aos pensamentos e histórias.

 

Nao

“Oi! Meu nome é Nao e eu sou um ser-tempo. Você sabe o que é um ser-tempo? Bem, se você me der um minutinho, eu explico.”

Naoko Yasutani, Nao para os íntimos, é uma adolescente japonesa de 16 anos que cresceu totalmente inserida na cultura americana, pois seu pai era craque em programação e foi chamado para trabalhar no Vale do Silício. Nao e sua família deixaram o Japão e embarcaram para a Califórnia quando ela tinha apenas três anos de idade. Com o estouro da Bolha da Internet, a empresa onde o pai de Nao trabalhava faliu e eles foram literalmente mandados de volta para o Japão, praticamente sem dinheiro algum, pois seu pai investia grande parte do salário em ações da empresa.

Nao e sua família passaram a morar em um apartamento minúsculo no subúrbio de Tóquio e devido ao fracasso, seu pai se tornou um hikikomori (pessoa reclusa que apresenta sinais de depressão) e via o suicídio como uma saída. A única reação que a mãe de Nao teve em relação a tudo isso por um bom tempo, foi apenas sair todos os dias de casa para observar águas-vivas em um aquário da cidade. Enquanto isso, Nao sofria ijimi (bullying) de forma cruel e brutal na escola por ser aluna estrangeira e não se enquadrar nos padrões japoneses.

Nao tem uma vida solitária no Japão e se define como um ser-tempo, que apenas ocupa um espaço, mas logo vai se diplomar (como ela mesma costuma dizer). O único motivo pelo qual ainda insiste na sua vida sem sentido, é sua bisavó, Jiko, uma monja budista de 104 anos. Jiko foi engajada politicamente quando era mais nova. Teve um filho morto durante a Segunda Guerra Mundial como piloto camicase. Depois disso, resolveu se mudar para um templo no alto de uma montanha afastada da cidade e dedicou-se ao sacerdócio. No auge dos seus 104 anos, ela vive a vida sem pressa, tudo no seu tempo e por isso tem um nível de abstração inimaginável.

Certo dia, Nao e Jiko estavam na praia, então a monja pediu para que a garota lutasse contra as ondas e descontasse todo o desgosto que sentia pela sua vida. Ela foi. Quando voltou, disse: – Mas vó, eu não venci, o mar sempre irá me deter e o mesmo acontece com os surfistas quando caem de suas pranchas e ficam embaixo das ondas. A sábia velha Jiko respondeu algo mais ou menos assim: – Ganhar, perder, embaixo, em cima, uma pessoa, uma onda, uma montanha… É TUDO A MESMA COISA. (?)

Em algum momento do livro, Nao diz que não interessa o que é, contanto que você descubra algo concreto com que se ocupar enquanto vive a sua vida sem sentido, e foi exatamente isso que ela fez. Sentada em um café no centro de Tóquio, Nao decide escrever um diário e contar um pouco sobre sua vida, mas principalmente contar a história de sua bisavó. O diário de Nao é totalmente diferente do diário de uma colegial qualquer. Ela escreve diretamente para um leitor aleatório que só consegue imaginar…

 

Ruth

Do outro lado do pacífico, Ruth, uma escritora, descendente de japoneses, que passou parte de sua vida morando em Manhattan, mas atualmente mora com seu marido em uma ilhazinha remota na Colúmbia Britânica, no Canadá (alguma semelhança com a Ruth autora?), encontra uma lancheira vermelha da Hello Kitty envolvida por um plástico cheio cracas. Dentro há um livro, um caderninho escrito em francês, algumas cartas em japonês e um relógio. O Livro é de Proust, À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU (Em Busca do Tempo Perdido), mas o livro em si foi arrancado e substituído por páginas em branco e escrito à mão, em algum momento no tempo.

Supõe-se que tais objetos sejam partes dos destroços do terrível tsunami que abalou não somente o Japão, mas o mundo inteiro em 2011. Tudo mera suposição… Ruth é uma escritora/leitora e recebe o livro de Proust, que na realidade é um diário, no mesmo momento em que estamos lendo o livro, o que a torna alguém com quem podemos dividir especulações. Um detalhe interessante é que ao invés de ler o diário todo de uma vez, ela prefere respeitar o tempo em que foi escrito, e o lê sem pressa.

À medida que o leitor vai ficando mais íntimo de Ruth, percebe-se que ela entra em conflito com o eterno agora…

 

Ruth Ozeki escreveu uma autoficção, o que significa que os assuntos abordados no livro, de alguma forma estão relacionados com sua vida pessoal, entretanto, não é uma autobiografia, e existe sim uma diferença entre a obra e a autora.

É fantástico ver a forma como o passado e o presente de Nao se relacionam com o presente de Ruth (personagem), que na realidade já é futuro. Nao toca em Ruth e Ruth toca em Nao através do tempo. Até onde é realidade? Até onde é ficção? Onde está a vida sem sentido de Nao e as memórias vazias de Ruth? Onde podemos encontrar o tempo perdido que deu o título ao livro de Proust e ao diário de um ser-tempo?

Um ser-tempo é alguém que existe no tempo, e isso quer dizer você, e eu, e todos nós que estamos aqui, ou já estivemos, ou que um dia estarão.”

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 Eu, no meu interior, admito que mesmo antes de conhecer os personagens do livro ‘A Terra Inteira e o Céu Infinito’, sempre tive comigo um pouquinho da Nao, da Ruth, da Jiko e até mesmo do pai da Nao, afinal, todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já passou pela experiência de se sentir um fracasso. Isso é normal. Encontre uma estratégia de sobrevivência. Lembre-se também que, ganhar e perder pode não ser igual, mas também não tem diferença. É tudo a mesma coisa. Abstrai…

BOA LEITURA!